Sinal - A professora Marta leciona na escola há 30 anos e é, neste momento, a nova diretora.
Dra. Marta Pena- 30 anos …, eu vim para cá em 90/91 e fiz cá o estágio, regressei em 95/96. Por isso, sim, está a fazer 31 anos agora.
Sinal – Então, mais um...
M.P. Exatamente. Mais um ano de serviço. Ao que há a somar a escolaridade obrigatória... Só em nota de rodapé: está aqui presente a minha professora de Francês, do oitavo ano, e, simultaneamente, a minha orientadora de estágio profissional de Português no meu estágio, a Dr.ª Cristina Pereira.
S - Como decidiu tornar-se professora?
M.P. Por
duas razões. Por um lado, porque eu ouvi os meus pais. Algo
que, às vezes, parece não ser relevante.
Quando estamos nos nossos 14, 15 anos,
pensamos “Ok, eu é que sei aquilo que eu quero.” Mas eu ouvi os meus pais. Inicialmente,
o Direito era a minha preferência,
era aquilo que naquele momento gostaria de ter
seguido. Ou, eventualmente, a Filosofia. Contudo o meu pai lembrou-me de que, na
altura, as mulheres não tinham garantida a subsistência económica na advocacia.
E eu queria ser independente, como vocês, certamente, também querem. E não
queria estar dependente nem dos meus pais, nem de ninguém para poder seguir com
a minha vida.
O ensino surgiu como essa possibilidade. Isto aconteceu
quando eu tinha uns 15 anos e orientei o percurso para a área de que eu mais
gostava, que era o Português. E foi nessa altura que optei pelo curso de
Línguas e Literaturas Clássicas. Estudei Latim na escola, fiz Grego por fora e propus-me
a exame.
Com essa formação, obviamente que, a nível profissional, não havia outra saída a não ser o ensino. Quando se começa uma profissão, ninguém sabe se vai gostar ou não. Pode pensar que é o seu projeto de vida e o seu sonho. Mas só o sabe efetivamente quando está a exercer a atividade. E, quando comecei a lecionar, percebi que gostava realmente daquilo que fazia e que era o que me satisfazia em termos profissionais. A partir daí, nunca mais hesitei. Nem pensei em seguir outra profissão.
S. - O Direito ocorreu por causa da influência do pai, não?
M. P. - Sim, o Direito estava na minha família. O meu pai era advogado. O meu irmão também seguiu Direito. E havia ali naturalmente uma tendência. Também tinha algum gosto na argumentação e nos problemas da justiça.
S. - Pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso
no ensino universitário e profissional?
M. P. - Estudei em Coimbra. Era uma turma muito pequenina, de 13/14 alunos, porque as Línguas e Literaturas Clássicas não tinham muita procura. Isso permitia que, como agora no ensino secundário, tivéssemos uma grande proximidade com os professores. O que não vai acontecer, provavelmente, nos cursos que vocês vão seguir. Que curso pensam seguir?
S. – Eu pretendo seguir Relações Internacionais.
M. P. - Essas turmas têm cento e tal
alunos. Ainda que haja professores que vos possam conhecer, não é a mesma coisa.
Nós éramos 14. Tínhamos de fazer trabalhos de casa, fazíamos chamadas orais
diárias. Era um ensino muito semelhante ao do ensino secundário. As aulas eram
de duas horas. Começavam às oito da manhã e, em Coimbra, no inverno, fazia muito
frio. Às vezes era desconfortável.
Foi um percurso académico sem a frieza de
muitos dos cursos de Ensino Superior, com uma grande afinidade entre colegas e
professores. Correu bem. Quando terminei o Ensino Superior, tive a sorte de ainda
ser fácil entrar no ensino e garantir uma carreira estável. E, efetivamente, exerci
sempre na Figueira. Nesta escola e na Bernardino Machado. Efetivei
noutras escolas do país, mas fiquei sempre a lecionar na Bernardino Machado e
na Joaquim de Carvalho. Foi um percurso em que fui assumindo algumas funções de
liderança intermédia. Inicialmente, fui delegada de grupo de Latim, depois de Português
e ainda Coordenadora de Departamento.
Entretanto, comecei a estar associada à
direção, primeiro apenas como assessora, depois como adjunta, depois como
subdiretora. E assim, num instantinho, se passaram 17 anos nestas funções.
S. – Está há 17 anos como adjunta do Diretor? Como
decidiu candidatar-se?
M.P. - Certo. Com a aproximação da aposentação do
anterior Diretor tinha a consciência de que alguém devia tomar a seu cargo a
direção da escola. Apesar de haver mais pessoas com a formação
que é exigida para exercer o cargo, e não querendo parecer convencida, com a
experiência que eu tinha não havia mais ninguém. Senti um bocadinho o peso da
responsabilidade e do sentido de missão. Tinha chegado a vez de eu também dar o
meu contributo de uma forma mais direta para orientar os destinos da escola.
S. - Então, a decisão de se tornar diretora surgiu
naturalmente?
M. P. - Sim, sim. Claramente não teria tomado essa
decisão se o Dr. Carlos Santos continuasse, se tivesse anos de serviço pela
frente. Eu gosto muito de dar aulas. Gosto muito da relação com os alunos e vou
sentir a falta desse contacto com os alunos. Assim, assumo este cargo com um bocadinho de
sentimento de perda, porque, como vos disse, ser professora realiza-me e não
poder sê-lo daqui em diante é...
S. - Agridoce?
M. P. - Agridoce…
S.- Entretanto, já respondeu à pergunta que temos
para fazer neste momento. Ou seja, como surgiu a decisão de se tornar diretora.
Em função das circunstâncias em que se viu envolvida, não é?
M. P. - Sim.
Podemos pôr a questão do porquê de, há anos, não ter tomado essa decisão,
quando também houve a possibilidade: já tinha a formação, poderia tê-lo feito.
No entanto, achei que quem estava à frente era quem devia estar naquele momento
à frente da escola, era o Dr. Carlos Santos. E foi um grande exemplo para mim. Agora,
a situação alterou-se e, em função das circunstâncias, foi esta a minha decisão.
S. - O que mudou na sua vida desde que assumiu o
cargo?
M. P. - Ainda
é cedo para dizer o que mudou na minha vida, mas estes dias, desde o dia 18 de
abril, tiveram alguma influência no meu bem-estar noturno, a verdade é que não
durmo tão bem. Acordo muitas vezes às 5/6h da manhã, a pensar «tenho de fazer
isto, tenho de fazer aquilo, não me posso esquecer…». E às vezes surgem ideias
até mais produtivas.
Em termos de descanso, assumo uma pequena
variação. Acredito que, entretanto, tudo retorne ao normal. Em termos de dia a dia,
é uma tentativa de conciliar o meu tempo com as solicitações. Vocês mesmos, há
pouco, tiveram de estar à espera, porque eu tinha marcado uma reunião para as
14h45, entretanto recebi um telefonema de Coimbra e tudo acabou por se
atropelar um bocadinho. Gostaria, e creio que daqui a pouco tempo vou conseguir
organizar a agenda, de poder estar mais tempo fora do gabinete do que no seu
interior.
Neste momento, é uma vida um bocadinho de gabinete, que não é exatamente o ideal para alguém que está à frente de uma instituição. Tem de viver a instituição, tem de contactar com as pessoas e, para já, isso ainda não foi possível.
S.- Por enquanto ainda tem os seus alunos?
M.P. - Tenho a minha turma, sim. Ainda estou a lecionar, o que também condiciona um bocadinho o tempo que tenho disponível. Acabando este ano letivo, vai ser mais fácil.
S.- Reparámos que estavam alunos seus na sua tomada de posse.
M.P. - Estavam, sim. Eles ficaram um bocadinho vaidosos. Estavam alguns dos meus alunos do oitavo ano e alunos da outra turma que acompanhei há três anos e que agora estão no décimo primeiro. Os últimos alunos cujo trabalho acompanhei.
S.- Nas suas propostas de intervenção na escola,
quais seleciona como prioritárias?
M.P. - Como prioritárias, e aquelas que defini como
a linha de orientação da minha ação, destaco introduzir na formação dos alunos
a consciência de que o indivíduo só se forma plenamente quando concilia o
conhecimento científico com a formação humanística. Isto é, independentemente
da área vocacional ou do percurso profissional que cada um seguir, saber que,
enquanto seres humanos, só seremos plenos quando não nos preocuparmos apenas
com a nossa profissão, o nosso rendimento económico, mas tivermos também
preocupações sociais, preocupações com a arte, com a realidade à nossa volta.
Uma formação que permite olhar para os outros e perceber que o nosso bem-estar
passa também pelo bem-estar dos outros.
E aí intervêm todas as áreas: a área física, a área artística e, claro, a área científica. Quero que os alunos não se foquem exclusivamente em si próprios e no seu conhecimento ou na área de conhecimento que escolheram seguir. Quero que tenham uma visão mais abrangente. Vamos tentar introduzir ações que levem os alunos a tomar essa consciência por diferentes meios.
S.- Isso é fantástico, mas muito difícil de
conseguir…
M.P. - É. No próximo ano, por exemplo, cada turma
vai escolher o seu patrono. Dependendo dos anos, terão de o procurar num âmbito
diferente, mas um patrono que seja uma figura de referência a nível cultural: um escritor, um cineasta, um pintor, o que
seja. Depois, vai ter de procurar, investigar sobre essa figura e apresentá-la
à comunidade escolar, através de uma reportagem, de uma exposição…
Essa é uma medida. Outra, cada turma terá de
pensar uma atividade cívica que queira desenvolver ao longo do ano, que terá uma
efetivação pontual. Assistir
a uma reunião de Câmara, para perceber como é que os destinos da nossa cidade aí
se decidem. Outra possibilidade,
viver uma tarde num lar para perceber essa realidade ou ir visitar uma creche,
assistir a uma reunião da Assembleia de Freguesia ou ir um dia a uma fábrica e
perceber como funciona.
Em resumo, cada turma vai selecionar uma atividade a realizar durante o ano, de âmbito cívico, que garantidamente vai permitir ter uma visão, uma perspetiva diferente sobre a sociedade.
S. - E projetos para incentivar à leitura?
M. P. -Neste momento, já começámos com esta sugestão semanal de “Este fim de semana eu posso”. Trata-se de sugestões não apenas minhas, mas também de diferentes elementos da comunidade escolar. Muitas dessas sugestões são orientadas para a leitura, haverá outras de outra natureza. Mas a leitura está aí.
S.- Depreendemos, então, que na formação integral dos jovens há algo mais do que os currículos.
M. P.- Sem dúvida nenhuma, é essa a minha
perspetiva. E é nesse sentido que vamos trabalhar. Este ano estamos numa fase
final, não é possível introduzir ainda muitas mudanças. Mas a partir do próximo
ano, elas surgirão. Todavia, os grandes motores dessa procura têm de ser eles
próprios.
Temos de lutar contra algo - vocês e todos nós - que nos absorve de forma inconsciente e que são as novas tecnologias. Se nós próprios não conseguirmos pôr um travão nos ecrãs, garantidamente que, por muito que outros nos proponham coisas novas, nos tentem despertar para outras realidades, nós não vamos atrás.
Existem já estratégias que vão um bocadinho ao encontro dessa necessidade. Por exemplo, há grupos de amigos que, quando se encontram, restringem o uso do telemóvel: cada um coloca o seu em cima da mesa para conseguirem conversar durante o almoço.
S. - Sabemos que já foi coordenadora do clube de jornalismo da escola. O que pensa sobre o papel de atividades extracurriculares, nomeadamente esta, na formação dos alunos? Pode também partilhar connosco um bocadinho dessa sua experiência?
M.P. - Gostei muito de trabalhar no clube de jornalismo. Ainda colaboro, na medida em que muitas vezes, também na direção, publicamos notícias que nos chegam ou temos de as montar. Gostei muito! Acho fundamental que a escola tenha uma comunicação bem estruturada para o interior e para o exterior. E o clube de jornalismo também tem essa função.
Acho que é muito importante para os alunos, e também para os professores, verem que a sua atividade, a participação num concurso, a dinamização de uma exposição, de uma visita de estudo, foi traduzida numa notícia, e que é dado conhecimento à comunidade escolar. E o clube de jornalismo faz isso muito bem. Partilhem também essa vossa experiência com os vossos colegas, mesmo com os mais novos, para que eles também ganhem gosto por esta atividade.
Muitas vezes as pessoas ignoram o que se faz na escola. E a divulgação destas notícias, além de os pôr a par do que se fez, pode motivá-los a realizar novos projetos.
S. - Vamos à penúltima pergunta! Em resumo, no seu ponto de vista, o que é uma boa escola?
M.P. - Uma boa escola? Não quero cair na tentação de dizer “Ah, a nossa é uma boa escola”. Porque as escolas são boas, dependendo daquilo que acontece nelas e do espírito que se consegue introduzir nelas. Uma boa escola é aquela, à partida, e de uma forma muito simplista, em que os alunos se sentem bem e os professores se sentem bem. E, simultaneamente, em que esse sentir-se bem é produtivo para uns e para outros.
É forçoso que os alunos saibam que estão
na escola para, por um lado, fazer a sua formação científica, fazer
aprendizagens, adquirir conhecimento, mas, simultaneamente, para fazerem também
o seu percurso enquanto pessoas que realizam a sua formação cívica; e que
estejam disponíveis para se tornar melhores pessoas nesse período, para
partilhar experiências e colaborar com os outros.
Esta é a minha perspetiva de uma boa escola. Podemos dizer “Ah, uma boa escola é aquela que aparece no topo dos rankings, em que os alunos têm médias de vinte”. Se o critério for as classificações, sim, aquela é a boa escola, mas esse não é o critério que valorizo para classificar uma como boa escola. Claro que, e em termos ideais, se os alunos estiverem lá para aprender a serem melhores pessoas, certamente que os bons resultados vão surgir também. O mais importante, volto a dizer, para mim, é que os alunos cresçam enquanto pessoas nessa boa escola.
Por outro lado, também tem de ser um espaço com boas condições físicas. O conforto é muito importante: não é fácil aprender se tivermos frio, ou se o ambiente à nossa volta for de guerra, como em alguns países. A nossa escola tem condições físicas muito boas, melhores do que essas escolas, de certeza. Às vezes não nos lembramos disso….
S. – Dra. Marta, para terminarmos gostaríamos que deixasse alguns conselhos aos jovens, nomeadamente aos que se preparam para entrar no ensino superior ou na vida ativa.
M.P.- Conselhos? Não exatamente conselhos, antes opiniões.
O conselho pressupõe que eu tenho autoridade sobre a tua perspetiva ou a tua pessoa. E verdadeiramente só cada um é que sabe da sua vida, é que a experiencia e, portanto, consegue encontrar as melhores opções em cada momento. Ou pelo menos, acha que aquelas são as suas melhores opções. Contudo, considero que cada um tem de ter a noção de que, por um lado, os projetos que estabelecer vão ter sempre realizações diferentes daquelas que projetou. Tem de estar sempre disponível para a mudança, de mente aberta. Nunca, nunca um projeto que planeamos se cumpre rigorosamente. Vai haver, de certeza, interferências, momentos que não conseguimos prever e que o vão modificar para melhor ou para pior… Se aceitarmos que o futuro nos vai trazer mudanças, a deceção será certamente menor.
Por outro lado, pensem no que querem introduzir como marca pessoal no mundo em que vão mover-se. O que é que querem fazer? De que forma é que querem transformar o mundo em que vão viver, de modo a que se torne um pouco melhor? O curso que vão escolher vai ter de ter esse objetivo. A profissão que escolherem tem de ter esse objetivo. É para vós, mas também para o mundo.
Não há duas vidas iguais e cada um só experiencia a sua. E tem de tentar ver qual é o melhor caminho para si.
S. – Dra. Marta, o Sinal agradece a sua disponibilidade e o tempo que, gentilmente, nos dispensou e formula os votos de o maior sucesso profissional e pessoal.
Isadora Afonso , 12.ºF
Flor Meneses, 12.ºF



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